Como tatuagem
Estou impregnada de ti.

Ocupas todos os meus espaços, minhas células, meus neurônios. Por isso, meus pensamentos, minhas noites mal dormidas, meus encantos, meus desencantos. Como ventania repentina em porta mal fechada, entraste na sala desarrumando cortinas, levantando poeira. És intruso em minha alma, mas não vivo sem teu aconchego, porque dele bebo, porque dele me alimento, porque dele respiro, porque dele consigo ver o mundo que se abre em policrômicas paisagens dos nascentes e poentes das estações. Na copa das árvores sinto o perfume que emana de ti, como se elas também possuíssem teu corpo. Isso não passa de loucura, mas como é doce essa loucura, como é amarga também. Quando te beijo, sinto vulcões, lava escorrendo pelas veias, fogo a crepitar no peito, fagulhas elétricas a guiar minhas mãos em direção a pontos cardeais paradisíacos. Mesmo conhecendo teus caminhos, faço questão de me perder. Dessa forma, desfruto mais tempo das delícias de tuas fontes e mananciais. Não me importa a rosa dos ventos, já que norte e sul, leste e oeste se confundem, se misturam, se enroscam e se perdem em encruzilhadas. Por elas passeio, volto ao ponto de partida, sem me importar em cruzar por ali outra vez. Teus montes, tuas cascatas, tão conhecidos meus, renovam-se a cada incursão. Assim são minhas viagens contigo. Assim passa o tempo e esqueço do mundo em teu universo. Como tatuagem, marcaste minha pele, deixaste teu brasão, tomaste posse de meu território, mas não peço reintegração.
Boa noite.
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